.: Quinta Nova de Sto. António, Carcavelos (Cascais) :.

 

A área intervencionada situa-se na localidade de Carcavelos, a cerca de duzentos metros a norte da praia de Carcavelos, na designada Quinta de Santo António ou dos Ingleses. Através da análise proporcionada quer pela prospecção arqueológica realizada, quer pela abertura das valas de diagnóstico e escavação manual das sondagens, bem como pela observação do material recolhido, foi possível reunir algumas considerações acerca da sequência estratigráfica e ocupação do local.

Os trabalhos de desmatação e subsequente prospecção arqueológica dos diferentes sectores, não permitiram recolher quaisquer indícios materiais relevantes acerca da ocupação daquele local, exceptuando o Sector I, local onde foi detectada uma jazida paleolítica, já anteriormente intervencionada pelo Dr. Guilherme Cardoso e cujos resultados já demos a conhecer neste relatório. Esta jazida localiza-se no limite Sul do sector I, a cerca de 140m para Norte da estrada marginal. Neste local foi então possível recolher escassos artefactos líticos (lascas e restos de talhe) em quartzito e sílex, cuja dispersão se limitava à zona já anteriormente intervencionada;

Os trabalhos de abertura de valas de diagnóstico mecânicas permitiram a identificação de dois locais onde surgiram vestígios arqueológicos relevantes, detectados no Sector II e V, que originaram a abertura de duas sondagens de diagnóstico, com 4 x 4m e 14 x 7m respectivamente, vindo esta última posteriormente a ser alargada no seu lado Este em mais 3m para Norte;

No Sector I, para além das valas de diagnóstico que revelaram uma fraca potencia estratigráfica e um revolvimento bastante acentuado das diversas camadas, foram efectuadas quatro sondagens de diagnóstico manuais na área onde se verificou maior incidência de materiais arqueológicos. O objectivo da abertura destas sondagens passava por balizar a área de localização da jazida paleolítica. Deste modo, a abertura das sondagens veio comprovar que o local da jazida se limita praticamente à área da intervenção arqueológica efectuada em 1999 por Guilherme Cardoso, corroborando os dados obtidos com essa intervenção. Foi possível observar uma fraca potência estratigráfica, revelando esta um grau de revolvimento bastante elevado, surgindo escasso material arqueológico integrável na Pré-História antiga, misturado com cerâmica contemporânea. Esta evidência regista-se ao longo de todas as camadas estratigráficas observadas. Importa referir que este local no século XVIII/XIX esteve ocupado por vinha e que, já no século XX, foi ali construído um campo de golfe;

A escavação manual da Sondagem V, permitiu pôr a descoberto uma estrutura em negativo com cerca de 5,7m de diâmetro máximo. Os níveis de enchimento desta estrutura apresentam um espólio arqueológico que revelou uma ocupação do sítio durante a Idade do Bronze. É de referir que, à excepção de seis artefactos líticos, todos os restantes artefactos exumados correspondem a fragmentos cerâmicos na sua maioria a vasos de provisões. Acreditamos que a estrutura em negativo identificada no limite Sul da sondagem, poderá corresponder a um fundo de cabana, que teria funções muito específicas, não de habitat, mas sim de armazenamento. Esta hipótese é corroborada quer pelo aparecimento de grande número de fragmentos de vasos de provisões, quer pela ausência quase total de espólio de cariz mais doméstico (fauna mamalógica/malacológica, elementos de moagem, estruturas de combustão, entre outros) geralmente associados a estruturas de habitat.

A escavação manual da Sondagem VI colocou a descoberto uma estrutura negativa de planta circular com cerca de 1,10m de diâmetro, escavada no substrato geológico. A sua escavação permitiu exumar um espólio arqueológico bastante coeso cronologicamente, que revelou uma ocupação do sítio durante a Idade do Bronze final. A estrutura descrita encontra paralelos próximos numa semelhante, embora mais pequena, no Cabeço do Mouro, em Cascais, que João Luís Cardoso identificou como um silo, posteriormente utilizado como fossa de acumulação de detritos domésticos no Bronze Final (Cardoso, 2006, p. 32). Quanto à estrutura por nós encontrada não existem certezas se teria tido uma função original como silo, mas consideramos esta hipótese plausível, tendo em conta estarmos perante terrenos férteis, largamente cultivados num passado mais recente, e que devem ter sido utilizados pelo homem com o mesmo fim ao longo dos tempos. Já evidente é a constatação de um momento em que a estrutura é desactivada e utilizada como fossa de despejo, saltando à vista o grande volume de restos faunísticos, quer mamalógicos quer malacológicos e de cerâmicas bastante fragmentadas associados a intensas concentrações de cinzas e carvões.

A Sondagem V e a Sondagem VI, estão separadas uma da outra cerca de 500m em linha recta, sendo os materiais nelas recuperados integráveis na Idade do Bronze, provavelmente Bronze final. A análise do espólio artefactual cerâmico, permite-nos levantar a hipótese de ambos os sítios serem contemporâneos, embora tenham tipologias distintas. No entanto, os dados obtidos não nos permitem tirar grandes conclusões quanto ao tipo de povoamento presente: um grande povoado ou zonas dispersas de ocupação, tipo pequenos casais agrícolas.

O registo arqueológico mostra que ao longo do Bronze final assistiu-se à multiplicação de núcleos de carácter familiar, tipo casais agrícolas ou mesmo povoados abertos, que baseavam a sua subsistência na exploração intensiva de carácter agro-pastoril ao longo de todo o ano, produzindo excedentes que seriam comercializados. Entre os produtos largamente produzidos contam-se os cereais (trigo), que ultrapassariam as necessidades de consumo destas pequenas comunidades, sendo frequente o aparecimento de estruturas de armazenagem tipo silo, semelhantes ao identificado durante os trabalhos arqueológicos. São vários os sítios de ocupação aberta conhecidos na região, de que destacamos: Cabeço do Mouro (Cascais), cujos trabalhos arqueológicos revelaram uma estrutura negativa tipo silo semelhante à agora posta a descoberto (Cardoso, 2006, p. 32); Castelo dos Mouros (Sintra) (CARDOSO, 1997/1998); Terras do Javardo (Arneiro-Cascais) (CARDOSO, 1991, p.86) (NETO e REBELO, 2008); Povoado do Bronze Final da Tapada da Ajuda, Lisboa com datações de radiocarbono entre inícios do séc. XIV e os finais do séc. XII a.C. (Cardoso, Silva, 2004); Povoado de altura do Bronze Final de Cabeço dos Moinhos, Mafra (Vicente, Andrade, 1971); Povoado do Bronze Final do Alto das Cabeças (Leião, Oeiras) – povoado de encosta suave numa zona de solos muito férteis, onde apareceram numerosos elementos denticulados de foice, a demonstrar a sua vertente agrícola (Cardoso, Cardoso, 1996).