.: Povoado Pré-Histórico de Porto Torrão (Ferreira do Alentejo) :.
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Os trabalhos arqueológicos realizados no âmbito da minimização e salvaguarda de impactes sobre o Povoado pré-histórico de Porto Torrão (Ferreira do Alentejo), permitiram uma boa noção da sua relevância e do bom grau de preservação de contextos e da cultura material a estes associada. Os trabalhos de decapagem mecânica colocaram a descoberto uma grande quantidade de vestígios, que ao se analisar a dispersão espacial dos diferentes elementos assinalados, vem mostrar que a linha definida como a área do povoado aquando dos trabalhos de prospecção da responsabilidade de José Morais Arnaud nos anos 80 do século passado (ARNAUD, 1993), não se encontra muito distante da realidade. Assim, as prováveis secções de fosso registadas ao longo dos trabalhos nos diferentes sectores, ao que tudo indicam estruturam uma espacialidade interna/externa que se estende por ambas as margens da Ribeira de Vale Ouro que apresenta uma orientação Este-Oeste, correndo no mesmo sentido (VALERA, 2008, p.123). Um outro aspecto a realçar é o do carácter limite dos diferentes níveis interpretados como secções de fosso, encontrando-se para o seu interior registados vestígios de uma intensa ocupação, enquanto que para o exterior se nota uma clara diminuição ou mesmo a inexistência de qualquer contexto antrópico. A análise de orientações e espacialidades das diferentes secções de fossos postas a descoberto aquando dos trabalhos, bem como as conhecidas em intervenções anteriores (VALERA, IOLA, 2004; VALERA, 2008), levaram ao desenho de hipóteses de trabalho onde se levanta a possibilidade estarmos perante três linhas de fosso, uma primeira exterior seguida por uma segunda linha relativamente próxima e que se desenvolve longitudinalmente. Delimitando a parte central do povoado encontram-se as secções intervencionadas em 2002 (VALERA, IOLA, 2004), seguindo-se em linhas gerais a proposta de António Carlos Valera (VALERA, 2008). Este tipo de análise mais que dados reais procuram fornecer hipóteses de trabalho a desenvolver em futuras intervenções, sendo estas que irão levar ao desenho da planta do povoado pré-histórico do Porto Torrão, bem como o estipular de estratégias de ocupação e abandono como ficou demonstrado pelos trabalhos arqueológicos de minimização e salvaguarda da REN em 2002 (VALERA, IOLA, 2004). Os trabalhos de decapagem mecânica e sondagens manuais permitiram colocar a descoberto na fase interna do povoado vestígios de uma intensa ocupação antrópica, na sua grande maioria composta por estruturas negativo escavadas no substrato geológico que devido à sua natureza argilo/margosa de textura muito branda e plástica, facilitaram este tipo de estratégia, destacando-se a utilização destas mesmo argilas/margas na composição de elementos estruturais como pisos, reentrâncias, saliências, compartimentação e divisão de diferentes espaços. Entre estas estruturas em negativo salienta-se para além das secções de fossos, as interfaces de base de uma cabana de planta rectangular da sondagem V, extremamente bem preservada, permitindo o registo de todo o espaço, inclusive do piso de ocupação; a estrutura que nesta fase se interpretou como estrutura ligada à gestão de água, que no entanto só a continuidade dos trabalhos permitiram uma melhor leitura dos contextos; bem como o nível de piso/calçada em caliço de cor branca orientado sensivelmente Este-Oeste que surgiu na sondagem XI. No que diz respeito ás estruturas em positivo, encontrando-se muitas delas quase à superfície o que levou ao seu remeximento e destruição, contudo foi possível detectar alguns contextos relativamente bem preservados como a base da cabana circular da sondagem IV, devendo o canto N-O da sondagem VII ter revelado o que se deve tratar de outra base de fundo de cabana constituído por elementos pétreos de médias dimensões. No que diz respeito ao sector 1 registaram-se contextos algo distintos dos restantes sectores, que ao contrário destes onde os indícios surgem quase à superfície do substrato geológico, sendo a grande maioria composto por estruturas que cortam contextos arqueológicos, bem como as argilas e margas geológicas, o sector 1 revelou que pelo menos em parte, a geologia encontra-se a mais de 1 metro de profundidade, facto que levou à deposição de várias camadas arqueológicas que em larga media devem ser representativas da diacronia do povoado pré-histórico de Porto Torrão, marcando diferentes fases e momentos de ocupação ao longo provavelmente de um largo período temporal. É ainda de destacar o facto que apesar de em relação à área total apenas se ter aberto sondagens manuais numa pequena parte da área a afectar, já foi possível detectar duas inumações. Por último, uma chamada de atenção para a grande quantidade, diversidade e qualidade do conjunto artefactual recolhido, encontrando-se neste momento em fase de estudo. Pensamos que a natureza especial do povoado pré-histórico de Porto Torrão ficou bem vincado com os trabalhos até agora realizados, estes permitiram mais do que o complementar dos trabalhos anteriormente realizados, trazer toda uma nova luz perante todo um conjunto de importantes contextos que revelam de forma única a vivência de homens e mulheres do 3 milénio a.C.
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