.: Rua dos Bacalhoeiros n.º 28, Lisboa :.

 

Propriedade da empresa F3 – Gestão de imóveis, o edifício insere-se em contexto urbano, situado em plena baixa lisboeta, numa rua de habitação e comércio, com grande movimento, mesmo junto à Praça do Comércio. É composto por prédio de habitação de 4 andares, com dois apartamentos por andar e ainda dois espaços comerciais no piso térreo, voltados para a rua principal. 

Na sequência das obras de remodelação do prédio que prevêem a picagem integral de todas as paredes e aplicação de novos rebocos e revestimentos, foram abertas sondagens parietais com o objectivo de identificar métodos construtivos utilizados; tipos de aparelho; sucessão de rebocos e revestimentos; alterações efectuadas à estrutura do edifício; e ainda possíveis vestígios da Muralha Fernandina ou Cerca Moura.  

Para atingir os objectivos propostos, foram efectuadas sondagens parietais seguindo a metodologia arqueológica empregue nas sondagens horizontais, bem como a sua adaptação à Arqueologia da Arquitectura que tem no Património Edificado o seu objecto de estudo. No total, realizaram-se 14 sondagens, de dimensões variáveis, seis ao nível do rés do chão, cinco ao nível do 1º andar e três no 2º; sendo que de entre estas, 11 estão localizadas na parede Norte (devido à possibilidade de aí se encontrarem vestígios da Muralha Fernandina) e 3 na parede Oeste (zona onde passaria a Cerca Moura). A par das sondagens foi feita a descrição estrutural do prédio, mediante observação das áreas já picadas integralmente. 

Através da análise proporcionada quer pelas sondagens efectuadas quer pela observação das áreas já integralmente picadas, foi possível reunir algumas considerações acerca da estrutura do edifício, sua cronologia e alterações sofridas. Verifica-se que o prédio segue um método de construção simples, utilizando preferencialmente a madeira como material. As paredes mestras, quer das fachadas como as que comunicam com os edifícios de ambos os lados, são constituídas por alvenaria de pedra calcária, de pequenas e médias dimensões e formato irregular, que inclui fragmentos de tijoleira em grande quantidade, unido por argamassa de tom alaranjado e consistência compacta, revestida no interior por uma argamassa de tom mais rosado, por sua vez revestida por reboco fino de argamassa de tom branco e, em alguns casos, por estuque com pintura simples. Nas paredes centrais, aquelas que fazem a comunicação dos apartamentos com a escada, foi utilizada a estrutura de gaiola pombalina, em vigas de madeira com travamento em cruz de Santo André, preenchidas depois por um aparelho maioritariamente de tijoleira e argamassa compacta de tom alaranjado. Também estas seriam revestidas por argamassa de tom rosado e reboco fino. Já as paredes que formam as divisões dentro dos apartamentos, bem como as meeiras da escada, são constituídas por tabique, composto por grandes tábuas de madeira dispostas verticalmente e unidas por pequenas ripas de madeira horizontais em ambos os lados, fixadas a elas através de taxas de metal. Este tipo de parede seria revestido por uma camada espessa de argamassa e esta por um reboco fino. Em termos de composição dos apartamentos e organização de espaços interiores, nota-se desde logo a grande quantidade de portas (comparativamente às casas actuais), fazendo a ligação de todas as salas entre si e suprimindo assim a necessidade de um corredor. Desta forma, excepção feita para as paredes mestras que comunicam com os edifícios existentes de ambos os lados e para a parede de comunicação com a escada, todas as paredes (mestras ou interiores) possuem pelo menos uma abertura, quer seja em forma de janela ou porta. As funções de cada compartimento são ainda nesta época pouco diferenciadas, havendo no entanto uma chaminé em cada casa. A casa de banho terá sido construída posteriormente, aproveitando na maioria dos casos parte do espaço da cozinha.

 O tipo de aparelho utilizado aponta para uma época de construção (ou reconstrução) no pós-terramoto, aquando da implementação do plano pombalino na baixa da cidade, muito embora o primeiro registo do prédio surja apenas em 1840.