.: Moinho 201, Serra de Carnaxide (Amadora) :.

 

A intervenção arqueológica no Moinho de Vento 20-1 permitiu registar os diferentes momentos e técnicas construtivas adoptados. Nota-se na estrutura uma clara busca do carácter funcional, procurando-se de uma forma geral aproveitar ao máximo o seu espaço exíguo, de forma circular como é habitual nos moinhos de vento desta região. Um bom exemplo registado é a criação de compartimentos embutidos nas paredes como o armário ou a capoeira localizada sob a escada de acesso ao piso superior. Outro exemplo de estruturas funcionais é a designada “roda”, detectada nas Sondagens VI e VII do Sector 2, constituída por pedras basálticas de médias e grandes dimensões que regularizavam o espaço exterior de forma a permitir a circulação, facilitando o trabalho e o acesso ao moinho. No entanto, não se descartava o aspecto decorativo e estético do moinho, encontrando-se restos de estuque pintado a vermelho ocre no seu interior.

Ao nível da ocupação registou-se no exterior, junto à entrada, um piso de terra batida sobre o qual se identificou uma camada homogénea de pequenas lascas de calcário. Este tipo de ocorrência é relativamente comum em estruturas deste tipo, indiciando trabalhos de reavivamento das mós que eram realizados no exterior, junto à entrada dado o peso das referidas mós.

No que diz respeito ao interior, os níveis de ocupação encontravam-se muito destruídos. Muitas das lajes em calcário e fragmentos de mós esgotadas que serviam de piso e degraus haviam já sido arrancadas, certamente para serem reutilizadas noutros locais. Esta prática era comum, sendo muitas vezes levada a cabo pelos próprios moleiros, que recorriam a um moinho que se encontrava em ruína, para retirar elementos que serviam na construção ou reconstrução de outros moinhos. O terem levado a cabo este tipo de acção no moinho de vento 20-1 poderá ser interpretado como indício do seu estado de ruína numa época em que outros moinhos se encontravam funcionalmente capazes, tendo os moleiros recorrido a este moinho na obtenção de elementos que eram reutilizados em outros moinhos de forma a continuarem em boas condições de funcionamento.

A área interna encontrava-se com o piso quase todo levantado, restando apenas alguns fragmentos de mós esgotadas in situ localizadas junto à parede norte e noroeste. Junto à parede oeste e sul, associado ao piso, encontra-se um nível de pequenos fragmentos britados de pedra calcária. Este tipo de ocorrência foi igualmente registado no exterior, junto à entrada, e indica que o trabalho de reavivamento de mós foi realizado tanto no interior como no exterior do moinho. Foi também possível detectar indícios de trabalhos de remodelação da estrutura, nomeadamente ao nível do piso, com o alteamento deste, sendo visível nas paredes internas duas linhas distintas de reboco: uma primeira linha que indica o nível de ocupação mais recente, devendo estar associado à época de abandono e ruína do moinho; e, marcada sob esta, uma segunda linha que deverá estar relacionada com a primeira fase de ocupação, posteriormente alteada. Devido ao facto dos contextos se encontrarem muito alterados, torna-se complicado determinar as razões ou a época em que se deu esta modificação ao nível do piso.

A análise do conjunto artefactual enquadra-se perfeitamente neste tipo de contextos. Para além de faianças pintadas a azul sobre fundo branco, cuja produção remonta ao século XVII mas que perduram no tempo até contextos bem mais tardios, todas as outras tipologias se enquadram nos séculos XVIII e XIX. Surge também alguma cerâmica comum, entre a qual se destacam alguns fragmentos de búzios, recolhidos no exterior junto à porta de entrada. Estas peças que, presas às varas do moinho, produziam um som, para além de servirem de “companhia” ao moleiro, quebrando o isolamento, permitiam-lhe perceber as características do vento (nomeadamente, a velocidade e direcção), a humidade do ar, bem como detectar algum problema nos mecanismos ou até a aproximação de uma tempestade (MARTINS, J., MARTINS, L., p.156).

A análise da arquitectura do moinho de vento 20-1 leva ao seu enquadramento nos moinhos de torre fixa com vigas, devendo ter sido erigido na segunda metade do século XVIII. O seu abandono e ruína deve ter-se dado no final do século XIX ou inícios do século XX. No entanto, os dados não são conclusivos.

O Moinho de Vento 20-1 como referido anteriormente faz parte integrante da designada Cintura Moageira Pré-Industrial de Lisboa, devendo os dados obtidos ser vistos não como herméticos, mas como referência no estudo de outros moinhos enquadrados no mesmo ambiente.